segunda-feira, 14 de novembro de 2011

"A Herança de Ezster" de Sándor Márai.



Ezster era uma solteirona de quarenta e tal anos. Vivia na casa da família acompanhada de uma anciã chamada Nunu. Nuno viera para a casa de Ezster para passar uns dias, mas acabara por ficar definitivamente. No momento da narrativa, Ezster estava muito doente e já se encontrava numa fase em que estava pacificada com os tormentos que vida lhe havia "ofertado". Mas toda essa paz muda a partir do momento em que Lajos surge mais uma vez na sua vida.
Este cavalheiro, fora só o grande amor da vida de Ezster. Esta amara-o incondicionalmente. Esse amor fora vivido há sensivelmente vinte anos atrás à data desta narrativa, contudo o Lajos havia-se casado com a própria irmã de Ezster que se chamava Vilma.
Lajos era uma verdadeiro canalha. Aparentemente ele era um homem encantador, (disfarce usado por grande parte dos canalhas). Este homem havia conseguido enganar toda a família de Ezster, ficando-lhe com a maioria dos seus bens. Contudo e como qualquer canalha que se preze, ele não sentiu, sente ou sentirá qualquer escrúpulo pelo sucedido. Casara com Vilma (a irmã de Ezster), com quem tivera filhos. Contudo Vilma já havia morrido. Do currículo de Lajos fazia naturalmente parte o facto de ser um mentiroso compulsivo: ele era tão convicto nessa sua característica imanente que nem dava conta de que estava a mentir. Para Lajos todos os meios justificavam os "seus" fins. 
Em certa altura, Lajos vendeu um anel valiosíssimo da família da mulher e mandara imediatamente fazer outro igual mas logicamente... falso. Depois e com a maior "cara de pau", oferece o anel (falso) à cunhada Ezster, dizendo-lhe que ela sim, é que é a verdadeira e legitima dona daquela "preciosidade".
Agora e passados vinte anos, Lajos aparece viúvo e com filhos já adultos. Ezster recebe-os e ouve da boca da sobrinha, o facto do pai ter enviado àquela três cartas. Tudo indicava que Lajos havia escrito essas cartas a Ezster antes de se ter casado com Vilma. Segundo a conversa da sobrinha, o pai havia pedido a Ezster para ficar com ele. Se ela o fizesse ele acabaria imediatamente o compromisso com Vilma. 
Mas Ezster desconhecera até aquela altura a existência de tais cartas, pois aparentemente fora Vilma quem as interceptara dentro de uma caixa de pau rosa. Essa caixa havia pertencido a Ezster, mas esta havia-a ofertado à irmã, pois a irmã havia-lhe suplicado até à exaustão a propriedade daquela singela caixa. Agora Ezster estava enferma e desgraçadamente não havia esquecido aquele amor funesto e doentio que só lhe trouxera maus momentos. Ela sabia que a vida era mesmo assim, pelo que agora ela não tinha nem tempo nem vontade de se revoltar com a sua sorte. Lajos consegue mais uma vez ver realizados os seus desejos. Consegue que Ezster assine um documento que lhe dará a casa que habita e o jardim (que eram justamente os únicos bens que detinha). Este ser vil e canalha, encarregar-se-ia (e como moeda de troca), tomar conta da Ezster e de Nunu até que as mesmas morressem. E repare-se no interessante pormenor: elas iriam para uma casa de repouso, pois segundo Lajos a casa dele não teria condições para as receber (não tinha o tamanho suficiente).
Este livro é muito interessante pois chama à atenção para uma série de factos: Será que um amor assim é uma inevitabilidade na vida de uma pessoa? Será que amar alguém que não tem qualquer noção moral implica viver na maior passividade, sem nunca haver lugar a revolta? 
A dada altura Lajos justificou a Ezster o seu amor. Ele havia-a amado, sabia-se destituído de qualquer tipo de escrupulos e achou que se casasse com Ezster compensava a coisa, já que o que lhe faltava a ele, sobrava-lhe a ela. Esta ideia surgiu na cabeça daquele indivíduo quase como uma compensação. Assim (segundo o parecer de Lajos) formariam um casal e uma realidade perfeitamente normal e passível de ser aceite por toda a comunidade. A santinha casa com o facínora e são os dois muito felizes!!! É o côncavo e o convexo. Esta ideia é muito estranha!!! E a meu ver impraticável. Corria-se o risco de haver troca de papeis com aquela convivência (lol).
Ezster contudo não era ingénua, sabe que ao assinar o documento que dará a Lajos a única propriedade de que é detentora está uma vez mais a ser roubada. Mas a sua vida está no fim, não faz qualquer sentido manter-se preocupada com os bens materiais. Ela é consciente de todos os defeitos de que Lajos é possuidor, contudo havia uma coisa que ela tinha a certeza: ela continuava a amá-lo. Contra essa situação Ezster nada podia fazer. Ezster faz um balanço da sua vida e tem a certeza de que foi muito infeliz e que nada viveu. Ela não viveu nem o seu amor, nem o seu desamor. Será legitimo não viver por se ter medo? É legitimo fugir do que a vida nos concede? De concreto nada sabemos sobre o que virá, mas será que fugir ao incerto trás venturas? E o que é o incerto? E ficar sempre agarrada à ideia de um homem malévolo é normal? Não será melhor avançar em outras direcções não temendo muito a incerteza? E não andar sempre a pensar de que vamos sofrer uma decepção? Não aprendemos todos muito mais com os insucessos que com os sucessos? Bem... eu andei a pensar neste livro por alguns dias e por isso acho que ele para mim cumpriu a sua função.

Atribuo a este livro a classificação de 3 em 5. Por favor não me levem a mal por este atrevimento.


BOAS LEITURAS!!!

Sem comentários:

Enviar um comentário